O Guardião das Sete Portas: Quando a Vida Exige Coragem Para Girar a Chave

 Exu Sete Portas e o ensinamento ancestral sobre movimento, escolha e a força de não permanecer refém do medo



Como ensina Exu Sete Portas: "Hesitação também é escolha. E que escolha triste é essa, de se manter pequeno, de não se testar, de não descobrir a força que mora escondida dentro da gente."


Tem um instante na vida de cada um — e esse instante se repete mais vezes do que a gente gostaria de admitir — em que você fica parado diante de uma porta fechada. O metal da maçaneta está frio na palma da mão. Do outro lado, alguma coisa espera: um novo emprego que pode dar certo ou dar errado, um amor que pode curar ou ferir, uma mudança que pode libertar ou complicar ainda mais a confusão que já é a existência. E ali, naquele momento suspenso entre o antes e o depois, entre o conhecido seguro e o desconhecido ameaçador, você congela.

O coração acelera. As mãos suam. A mente dispara numa corrida de "e se": e se for pior do que o que eu já tenho? E se eu me arrepender? E se descobrir que não sou forte o suficiente para o que vem depois dessa porta? O medo não é um sentimento discreto — ele ocupa todo o espaço do peito, empurra o ar para fora dos pulmões, transforma músculos em pedra. E a porta continua fechada. E você continua parado. E a vida, essa coisa obstinada que não respeita a paralisia de ninguém, continua acontecendo do lado de fora da sua hesitação.

É exatamente nesse momento de congelamento existencial que Exu Sete Portas chega. Não com gentileza apaziguadora nem com promessas açucaradas de que tudo vai dar certo. Ele chega com a verdade nua que corta como faca recém-amolada: "Mesmo quando você não sabe o que existe atrás de uma porta, abra."

O Guardião Que Não Guarda Apenas — Ele Desafia

Na boca do povo, nos pontos cantados que ecoam nos terreiros, nos relatos sussurrados pelos mais velhos que conhecem fundamento, os nomes se cruzam e se misturam: Exu Sete Portas, Exu Sete Porteiras. São designações diferentes para a mesma força ancestral, a mesma presença que não pede licença para chegar — simplesmente chega e mostra a que veio. Entidade de Umbanda com raiz fincada na terra preta da África mas florescida aqui, no Brasil de tantos santos e tantos guias, de tantas encruzilhadas e tantas escolhas.

Aquela preta velha de oitenta e dois janeiros bem vividos, dessas que carregam no olhar o peso sábio de décadas de chão batido e axé cultivado, resumiu numa frase o que gerações inteiras levam tempo para entender: "Esse é antigo." Não antigo de velho desgastado, mas antigo de hierarquia espiritual, de saber profundo que atravessa eras. Exu de fundamento, de mistério que não se entrega fácil mas que transforma quem tem coragem de buscar.

E aqui está a primeira desconstrução necessária, o primeiro véu que precisa ser rasgado: Exu Sete Portas não é o medo que assombra, como muitos gostam de pintar por aí por pura ignorância. Não. Ele é exatamente o oposto do medo paralisante. Ele é a própria coragem personificada — aquela coragem visceral de olhar o escuro da porta fechada, sentir o frio da incerteza subindo pela espinha, e ainda assim dizer com firmeza: "Eu vou ver o que tem lá."

Ele é o guardião que não apenas vigia a encruzilhada como um sentinela passivo. Ele vigia, sim, mas também entrega a chave. E aqui mora uma diferença crucial: muitos protetores espirituais cuidam dos seus filhos como se fossem eternamente crianças que precisam de proteção contra todos os perigos do mundo. Exu Sete Portas protege de outra maneira — ele protege dando ferramentas, ensinando autonomia, forjando força. Ele entrega a chave pra quem tem a ousadia de pedir e a firmeza de girar. O resto, meu irmão, minha irmã, é com você.

As Sete Chaves e o Mistério do Número Sagrado

Mas por que sete? Por que não três, não cinco, não dez? O número carrega fundamento antigo, força que atravessa culturas e religiões. Sete são as linhas da Umbanda para muitos. Sete são os dias da semana que a gente labuta entre descansos. Sete são as cores que o arco-íris estende no céu depois da chuva forte passar e o sol voltar a brilhar. Sete é conta de mistério, de totalidade, de ciclo que se fecha para outro poder começar.

Para Exu Sete Portas, cada uma dessas portas pode ser entendida como um portal para um campo específico da existência humana: o amor que nos conecta ou nos destrói, a saúde que sustenta ou que nos abandona, o trabalho que dignifica ou que massacra, a família que acolhe ou que sufoca, o conhecimento que liberta ou que enlouquece, a fé que ancora ou que fanatiza, a própria jornada do espírito encarnado neste corpo de carne e osso que envelhece enquanto a alma permanece eterna.

Ele não guarda só a porteira do terreiro, não. Ele guarda as porteiras da nossa própria existência, aquelas que a gente enfrenta todo dia quando acorda e precisa decidir: vou continuar nesse emprego que me mata por dentro ou vou arriscar procurar outro? Vou conversar com aquela pessoa que magoei ou vou deixar o orgulho construir um muro definitivo entre nós? Vou tentar de novo depois de ter falhado ou vou aceitar a derrota como destino?

Dizem que quando ele chega na Gira, a presença é inconfundível. Forte, vibrante. Às vezes risonho com aquele riso que desafia e provoca. Às vezes sério com a seriedade de quem conhece mistérios que a mente humana mal consegue tocar. Mas sempre, sempre direto — sem rodeios, sem meias-palavras, sem essa coisa de falar bonito para não magoar. Traz na mão, dizem, não uma, mas sete chaves.

E aqui está outra camada de sabedoria: chave abre, mas chave também tranca. Exu Sete Portas tem o poder de abrir o caminho que está amarrado, aquela porta emperrada pela inveja alheia, pela própria autossabotagem, pelas circunstâncias que parecem conspirar contra. Ele destranca a passagem para a prosperidade que estava bloqueada, para a alegria que não conseguia fazer morada no coração endurecido. Mas ele também sabe — e esse saber é fundamental — a hora exata de trancar. De fechar a porta para o abismo que se disfarça de oportunidade. De bloquear a entrada da energia ruim, do obsessor que ronda querendo brecha, da tentação que levaria à ruína.

Ele é o equilíbrio na encruzilhada. E a encruzilhada, essa que tanto medo provoca nos que não conhecem fundamento, não é lugar de perdição como pensa o povo desinformado. É lugar de escolha consciente, de decisão que precisa ser tomada, ponto de força onde todo caminho é possível e onde nenhum caminho está garantido. É ali, nesse ponto de poder ancestral, que Exu Sete Portas reina — mostrando com clareza implacável que para cada escolha existe uma porta, e para cada porta, uma consequência.

A Hesitação Como Escolha e Como Prisão

Tem uma verdade que corta fundo, que a maioria prefere não olhar de frente porque dói demais: "Hesitação também é escolha." Quando você fica parado diante da porta sem conseguir girar a maçaneta, sem conseguir dar o passo que falta, você não está simplesmente sendo cauteloso. Você está escolhendo. Está escolhendo a segurança ilusória da inércia. Está escolhendo não arriscar, não testar, não descobrir. E toda escolha tem preço.

O preço da hesitação é assistir a própria vida acontecer do lado de fora do seu medo. É deixar que oportunidades apodreçam na árvore porque você teve medo de subir para colher. É envelhecer com a certeza amarga de que poderia ter sido mais, vivido mais, amado mais — mas o medo foi mais forte que a coragem, a dúvida mais convincente que a fé, a paralisia mais confortável que o movimento.

"Deixar uma porta fechada por medo não impede que a vida continue. Só impede que você caminhe com ela." É a pura verdade dita sem floreio, sem gentileza desnecessária. O tempo não para esperando você juntar coragem. O sol nasce todo dia com ou sem sua aprovação. A lua gira no céu seguindo ciclos ancestrais que não consultam suas inseguranças. As pessoas ao seu redor tomam decisões, abrem portas, erram caminhos, acertam direções, vivem suas vidas enquanto você permanece congelado na mesma encruzilhada de sempre.

Ficar parado é virar sombra de si mesmo. É escolher a morte em vida — não a morte do corpo que ainda respira e come e dorme, mas a morte da alma que desiste de se expandir, de se testar, de se transformar. É assistir o próprio enterro acontecendo em câmera lenta, dia após dia, enquanto a versão corajosa de você — aquela que poderia ter sido — vai morrendo de inanição por falta de ação.

Exu Sete Portas não pede para a gente não ter medo. Ele não é ingênuo, não desconhece a natureza humana. Ele pede para a gente ir apesar do medo. E essa diferença é tudo. Coragem não é ausência de medo; coragem é movimento na presença do medo. É sentir o frio na barriga, ouvir a voz miúda da insegurança sussurrando catástrofes, reconhecer a dúvida que rói por dentro — e ainda assim colocar a chave na fechadura e girar.

Nem Toda Porta Leva ao Paraíso — E Isso Também É Ensinamento

E não se iluda, filho, filha de fé. Exu Sete Portas não é vendedor de ilusão, não é entidade que distribui promessas cor-de-rosa de que tudo vai dar certo se você apenas acreditar bastante. Ele lida com a verdade nua e crua da existência. Ele não promete jardim florido atrás de toda cancela.

Algumas portas, sim, vão se abrir para paisagens que acalmam a alma e nutrem o espírito. Para encontros que somam em vez de subtrair. Para conquistas que fazem o peito estufar de orgulho merecido, aquele orgulho bom que vem de ter ousado e conseguido. Essas portas existem. Axé! Agradece aos guias, aos orixás, à força da encruzilhada que conspirou a seu favor. Celebra. E segue.

Mas outras portas... ah, essas vão ranger nas dobradiças enferrujadas pelo tempo e revelar caminhos de espinho que rasgam a pele. Chão de pedra que machuca os pés. Talvez até o breu de um abismo que você não esperava encontrar, que não estava nos seus cálculos, que desfaz em segundos a ilusão de controle que você cultivava com tanto cuidado.

É nessa hora que o coração gela de verdade. Que a vontade fraqueja e as pernas querem voltar. Que a voz do arrependimento grita alto: "Para que fui mexer nisso? Melhor tivesse ficado quieto no meu canto, na minha zona de conforto miserável mas conhecida." É exatamente aí, nesse momento de desolação e dúvida, que a voz firme de Exu Sete Portas precisa ecoar mais forte — não para passar a mão na sua cabeça com consolo barato, mas para te lembrar do fundamento que você esqueceu na primeira dificuldade:

"Mesmo essas [portas] têm seu valor: mostram onde não se deve pisar e ensinam a dar passos mais firmes."

Entende a profundidade disso? Abrir a porta errada não é fracasso — é aprendizado disfarçado de decepção. É descobrir o limite da sua resistência. É entender na própria carne o que não serve, o que não é para você, o que precisa ser deixado para trás. É como mapear o terreno acidentado da própria vida: cada "não" que você encontra, cada beco sem saída que te força a voltar, cada tropeço que arranha o joelho e o orgulho, ensina mais sobre o caminho certo do que mil mapas desenhados por outras mãos baseados em outras jornadas.

Exu Sete Portas, como bom guardião que conhece tanto a luz quanto a sombra, não te impede de errar o caminho às vezes. Ele não é babá espiritual que tira todo obstáculo do seu percurso. Mas ele garante, com a força da sua palavra que é lei na encruzilhada, que se você tiver olhos de ver e ouvidos de ouvir — se você estiver presente na sua própria experiência em vez de fugir dela — sairá dessa passagem mais forte, mais sabido, com a sola do pé mais grossa para aguentar a caminhada que ainda falta.

"Toda porta aberta é um avanço." Mesmo que seja para descobrir que ali não é o seu lugar e ter que dar meia-volta. Mesmo que seja para aprender na dor o que não se aprende na teoria. Mesmo que seja para entender que você ainda não está pronto, mas pelo menos agora sabe onde precisa crescer.

Porque a pior prisão, escuta bem, não é a do erro honesto. A pior prisão é a da dúvida eterna, do "e se" que nunca encontra resposta, do medo que paralisa e transforma vida em sobrevivência vegetativa. "Quem nunca abre portas, nunca sai do lugar." É a sentença final, o ponto firmado por esse Exu que exige movimento, ousadia, confiança na própria força e na proteção dos guias que caminham invisíveis ao nosso lado.

Girar a Chave É Ato de Fé e de Responsabilidade

Então escuta, meu irmão, minha irmã de caminhada: quando a vida te colocar diante de uma porta fechada — e ela vai colocar, pode ter certeza, mais vezes do que você vai conseguir contar — lembra de Exu Sete Portas. Lembra da força desse Guardião ancestral que não te quer parado, estagnado, refém do medo que diminui e apequena.

Ele te entrega a chave, mas quem tem que ter a coragem de colocar na fechadura e girar é você. Ele te mostra a encruzilhada com suas possibilidades múltiplas e seus perigos reais, mas quem tem que escolher o rumo e bancar a escolha com todas as suas consequências é você. Ele te protege, te intui com aquele arrepio que avisa quando algo não está certo, te fortalece com axé quando você está prestes a desistir. Mas quem tem que dar o primeiro passo, quem tem que colocar um pé na frente do outro, quem tem que entrar pela porta que decidiu abrir — isso é com você.

A vida, na sabedoria profunda da Umbanda, é movimento constante, é aprendizado contínuo que não termina até a última respiração. E Exu Sete Portas é a entidade, o Guia que personifica essa verdade com clareza cortante. Ele é o impulso que faltava quando você estava quase desistindo. A faísca de coragem no breu sufocante da incerteza. A voz que diz "vai" quando todas as outras vozes dizem "fica".

Peça a ele firmeza no passo para não tropeçar. Peça clareza na mente para enxergar o caminho. Peça força no coração para aguentar o que vier. Mas — e esse "mas" é essencial — não espere que ele abra a porta por você.

Porque a responsabilidade final é sua. A beleza da conquista quando você consegue é sua. O orgulho de ter sido corajoso é seu. O aprendizado doloroso mas transformador quando você erra também é seu. Tudo isso, essa jornada inteira com suas subidas exaustivas e suas descidas assustadoras, é sua. É o que você veio fazer aqui, nesta vida, neste corpo, nesta encruzilhada específica que é a sua existência única e insubstituível.

E quando você finalmente girar aquela chave, quando finalmente der aquele passo que vinha adiando há tanto tempo, quando finalmente atravessar a porta que o medo tentava manter fechada — você vai entender na própria carne o que Exu Sete Portas sempre soube: que a vida verdadeira, a vida que vale a pena ser vivida, está do outro lado do medo. Que permanecer na segurança ilusória do conhecido é morrer devagar. E que às vezes, muitas vezes, a única forma de descobrir quem você realmente é e do que você é realmente capaz é abrindo a porta que te apavora e entrando mesmo assim.

As chaves estão nas suas mãos. As portas estão à sua frente. A escolha — sempre, inevitavelmente — é sua.


Sobre o autor:

Texto por Santiago Rosa, médium em desenvolvimento e aprendiz dos fundamentos da Umbanda, através dos ensinamentos de Exu Sete Portas. Escrevo do lugar de quem ainda está aprendendo a girar as chaves que a vida coloca nas mãos — às vezes com firmeza, às vezes com medo, mas sempre tentando ter coragem de abrir mais uma porta.

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