Saída de Santo no Omolokô para Mãe Iemanjá — a travessia de Yawó Jussara D'Yemonjá
Quando o mar carrega quem quase naufragou
"Minha essência é mudar, não basta ser rio, se eu posso ser mãe! Odoyá"
— Yawó Jussara D'Yemonjá
Há momentos na vida espiritual que não se contam — se testemunham. A saída de santo é um desses acontecimentos: travessia que atravessa, renascimento que exige morte simbólica, recolhimento que expõe o íntimo ao sagrado. Não é apenas rito de passagem. É fundamento. Ancestralidade que se firma no corpo, no tempo, na comunidade.
Yawó Jussara D'Yemonjá saiu de santo em 13 de dezembro de 2025, na força do Omolokô, sob o manto de Mãe Iemanjá, amparada por Pai Oxalá e Pai Ogum. Sua casa espiritual é o Terreiro de Pai Ogum | Seara do Mestre Sibamba, espaço de Umbanda, Omolokô e Jurema Sagrada, conduzido por seus pais de santo Pai William e Mãe Rosi, sob a força de Pai Mané e Vovó Maria Conga / Mestre Sibamba e Mestra Paulina — entidades que fundam e sustentam a casa.
Mas antes da saída, houve a travessia. E ela não foi simples. Mar bravo, tempestade, corpo testado por tratamento oncológico, fé sustentada quando tudo pedia desistência. Coletividade também: campanha, rifas, mãos estendidas, irmãos de barco, nomes que não se esquecem.
A postagem que ela compartilhou nas redes não é apenas registro. É testemunho público de um acontecimento privado e sagrado. Memória viva de quem quase naufragou, mas foi carregada. Voz que diz: a ancestralidade vive em mim.
Quando alguém sai de santo, não sai sozinha. Sai com tudo o que a trouxe até ali.
Jussara D'Yemonjá
A travessia — o que representa a saída de santo
"A saída de santo foi a espiritualidade me mostrando que eles são vivos e latentes em mim."
Em 11 de novembro de 2024, Jussara recebeu o diagnóstico de câncer na mama direita — carcinoma ductal invasivo, grau 1. O mundo paralisou, o chão fugiu dos pés. Ela tinha acabado de completar 50 anos em outubro, estava feliz. Mas aquela dor, aquele nódulo que emergiu do nada. Com o laudo nas mãos, iniciou a jornada rumo à cura, vestida de força, fé em Deus, nos Orixás e guias espirituais.
Em 30 de dezembro de 2024, começou as 16 sessões de quimioterapia — quatro vermelhas e doze brancas. Foi o réveillon mais atípico da vida dela. Mas na primeira sessão, o nódulo e o linfonodo na axila praticamente desapareceram. Foi aí que percebeu: o jogo estava a seu favor.
Durante cinco meses de tratamento, Jussara continuou sua vida normal. Trabalhando, participando ativamente das atividades do terreiro, vivendo. Quem a via não falava que estava em tratamento oncológico. A touca de resfriamento capilar, que mantinha sua autoestima feminina e sua juba black de pé, não era coberta pelo plano de saúde. Duzentos reais por sessão. Com ajuda de amigos valorosos, foram realizadas rifas, doações, sustentação coletiva.
Em 5 de maio de 2025, finalizou as 16 sessões. Em 29 de julho, realizou a segunda etapa: cirurgia de mastectomia das mamas e reconstrução com próteses. Momento difícil. Hemorragia na mama esquerda, retorno ao bloco cirúrgico, doze horas de cirurgia. Graças a Deus e à equipe cirúrgica, tudo terminou bem.
Para Jussara, a saída de santo foi muito mais do que renascimento para Mãe Iemanjá. Reafirmação da fé ao sagrado, reencontro com a essência que já vivia nela, mas adormecida. Início e fechamento de um ciclo: o ano de 2025, quando enfrentou e venceu com a ajuda da espiritualidade.
A saída de santo fechou esse ano de tanta luta. A espiritualidade mostrando que os Orixás são vivos, latentes, presentes — não como conceito distante, mas como força que habita o corpo, o cotidiano, a resistência diária. O recolhimento não é fuga do mundo. É mergulho profundo para retornar com outro fôlego, outro olhar, outra certeza.
Há travessias que não terminam quando se sai do quarto de santo. Continuam no corpo que se reconhece, na fé que se firma, no compromisso que nasce. Jussara saiu. Mas quem retornou foi Yawó. E isso muda tudo.
Ancestralidade viva — presença que pulsa no corpo
"Somos representantes deles e protagonistas dessa história. A nossa cultura afro-indígena é viva sim!"
Quando Jussara afirma que sua ancestralidade vive nela, não fala de memória distante ou romantização do passado. Fala de persistência e resistência. De honrar os ancestrais que lutaram para que todos chegássemos até aqui. De ser representante deles e protagonista dessa história.
A cultura afro-indígena é viva, mesmo quando tentam calar vozes e tambores. Mesmo diante do sangue derramado, da escravidão, da apropriação cultural. Vivenciar os ancestrais, para Jussara, é reorganizar saberes antigos nos tempos atuais, sempre respeitando a essência. A Umbanda, o Omolokô e a Jurema Sagrada são raiz. Não podem se perder.
Ancestralidade não é saudade. É presença. Corpo que respira, fé que sustenta, luta que continua. Saber que o vivido por quem veio antes pulsa agora, aqui, nas mãos de quem ainda está viva.
Durante os meses de quimioterapia, Jussara não parou. Continuou no terreiro, continuou trabalhando, continuou vivendo. Porque ancestralidade não é performance — é existência. É acordar todo dia e honrar quem veio antes, fazendo o que precisa ser feito, mesmo quando o corpo dói, mesmo quando a tempestade bate forte.
A força que a sustentou não veio só dela. Veio de quem pisou essa terra antes, de quem resistiu para que ela pudesse estar aqui, de quem plantou fundamento para que ela pudesse colher axé.
Fé em mar bravo — o cuidado de Mãe Iemanjá
"Iemanjá foi calmaria e tormenta ao mesmo tempo. Mesmo quando eu já estava cansada da luta, ela me carregava no colo."
Iemanjá, a mãe cujos filhos são peixes, a grande mãe de todas as cabeças, é de amor infinito. Mas o amor maior que ela quis mostrar a Jussara foi o amor próprio. Como boa filha de Iemanjá, Jussara sempre esteve ali para cuidar de todos. E se esquecia de si mesma.
Mãe Iemanjá a levou para águas profundas e a fez voltar para si. Calmaria e tormenta ao mesmo tempo. Mesmo quando Jussara já estava cansada da luta, Iemanjá a carregava no colo. Quando, por ventura, queria desistir, a Mãe vinha com sua força enorme e a impulsionava.
Jussara é pequena diante da força da grande Mãe. Mas fica gigante se não perde a fé. E é essa fé que é seu superpoder. Não a fé que nega a dor, mas a fé que sustenta a travessia. Não a fé que promete céu sem tempestade, mas a fé que garante: o barco não naufraga.
Quando o diagnóstico veio, quando o mundo parou, quando o chão fugiu, quem segurou? Quando as sessões de quimioterapia começaram no último dia de 2024, quem deu força? Quando a hemorragia aconteceu no bloco cirúrgico, quem amparo? Mãe Iemanjá. Sempre ela.
A fé de Jussara não foi testada uma vez. Foi testada toda semana, toda segunda-feira, a cada sessão, a cada exame, a cada incerteza sobre o que viria depois. E toda vez, Mãe estava lá. Às vezes silenciosa, às vezes trovejante, mas sempre presente.
O barco e a coletividade — sustentada por muitas mãos
"Digo que em 2025 eu recebi tanto amor e acolhimento, que não sei nem como agradecer."
Jussara se surpreendeu com o grande movimento que conspirou a seu favor. Demonstrações de afeto e ajuda vieram das mais variadas pessoas: espiritualidade, irmãos de fé, família, amigos valorosos. E, principalmente, da casa amada — o Terreiro de Pai Ogum | Seara do Mestre Sibamba — com todo o suporte de seus pais de santo, Pai William e Mãe Rosi.
Em 2025, ela recebeu tanto amor e acolhimento que nem sabe como agradecer. Porque saída de santo não é processo individual. É travessia coletiva. É barco que se constrói com muitas mãos, muitos nomes, muitos axés.
Quando a quimioterapia começou e a touca de resfriamento capilar não era coberta pelo plano, foram os amigos que organizaram rifas. Quando precisou de força emocional, foram os irmãos de fé que acompanharam nas sessões. Quando o corpo vacilou após doze horas de cirurgia, foi a família que sustentou. Quando a fé precisou ser reafirmada, foi o terreiro que acolheu.
Jussara não atravessou sozinha. Atravessou cercada. Os irmãos de barco — Brenda, Kennio e Val — foram essenciais no recolhimento. Unidos na força de Pai Oxalá, Mãe Iemanjá e Pai Ogum, chegaram juntos até ali.
O barco não naufraga porque não navega sozinho. Vai cercado. Vai amparado. Vai com a força de quem acredita junto, rema junto, chega junto.
O retorno — reconhecer-se no mundo com outro corpo
"Eu me reconheço ainda mais como parte da nossa ancestralidade e que sou a continuidade de seus sonhos e lutas."
Jussara não se vê como pessoa especial ou melhor do que ninguém. Não é mesmo — é aprendiz. Mas sabe que, progressivamente, tem maior responsabilidade social e diante do sagrado. Reconhece-se ainda mais como parte da ancestralidade, como continuidade de sonhos e lutas.
Principalmente da Umbanda e da Jurema, formadas pelos ditos "marginalizados da sociedade": pretos velhos, caboclos, exús, pombagiras, malandros, mestres e mestras. São eles que ajudam e resgatam tantas pessoas. São eles que mostram que sagrado não é privilégio de quem tem poder — é direito de quem tem fé.
Depois da saída de santo, o que muda não é o status. É o compromisso. É a consciência de que o corpo agora é templo vivo, instrumento do Orixá, continuidade de uma luta muito maior do que qualquer trajetória individual.
Jussara voltou diferente. Não porque o câncer foi vencido — isso já era vitória. Mas porque o ori foi firmado. Porque a ancestralidade foi reafirmada. Porque a fé foi testada e não quebrou. Porque o barco não naufragou.
Ela saiu de santo no dia 13 de dezembro de 2025, encerrando um ano de travessia intensa. E quando saiu, saiu inteira. Não apesar da dor, mas com a dor transformada em fundamento.
Compromisso — a responsabilidade que nasce com o renascimento
"A responsabilidade de ser um instrumento e templo vivo do Orixá. E sempre buscar minha evolução espiritual. Por eles e com eles!"
A responsabilidade que nasce com a nova caminhada é clara: ser instrumento e templo vivo do Orixá. Buscar sempre a evolução espiritual. Por eles e com eles.
Mas o que significa ser templo vivo depois de atravessar o que Jussara atravessou? Não é metáfora. É compromisso diário. É acordar sabendo que o corpo que quase foi vencido pelo câncer agora é morada do sagrado. Que a fé que sustentou a travessia não era só para ela — era para que ela pudesse sustentar outras travessias.
Jussara ama muito toda essa vivência que os Orixás proporcionam. Não é obrigação que pesa — é compromisso que honra. Não é fardo que cansa — é axé que move. Porque saída de santo não é chegada. É abertura. É começo de uma caminhada onde o sagrado não está mais distante, mas incorporado, vivido, respirado.
E essa responsabilidade não é solitária. É coletiva. É com o barco, com a casa, com a ancestralidade. É também com quem ainda vai chegar pedindo ajuda, com quem ainda vai precisar saber que o mar carrega, que o barco não naufraga, que Mãe cuida. É com as mulheres que vão receber o diagnóstico amanhã, na semana que vem, daqui a um ano. É com quem vai precisar escolher entre desistir ou vestir a força que não sabe ainda que tem.
O compromisso de Jussara agora é também testemunho. Não testemunho espetacular, mas testemunho verdadeiro. Mostrar que a fé é tudo. Que ela foi o principal combustível. Que mesmo diante do diagnóstico, da quimioterapia, da cirurgia, da hemorragia, da incerteza, a fé sustentou.
Não fé romântica. Fé que levanta todo dia. Fé que vai para a sessão de químio na segunda-feira e para o terreiro no fim de semana. Fé que chora, mas não desiste. Fé que é calmaria e tormenta, mas sempre presença.
Quando alguém sai de santo após vencer um câncer, após cinco meses de quimioterapia, após doze horas de cirurgia, após hemorragia no bloco cirúrgico, essa pessoa não sai apenas para si. Sai para mostrar que é possível. Que a espiritualidade não é refúgio da vida — é força para atravessá-la. Que os Orixás não prometem facilidade, mas garantem amparo. Que o corpo pode ser testado até o limite e ainda assim ser templo.
O compromisso que nasce do renascimento é paradoxal: ao mesmo tempo íntimo e público, pessoal e coletivo, silencioso e testemunhal. Jussara não precisa gritar sua fé — ela a vive. E essa vivência, por si só, já é ensinamento. Já é fundamento. Já é caminho aberto para quem vem atrás.
Ser Yawó não é título. É responsabilidade sagrada. É saber que o ori firmado carrega agora não só a própria história, mas a história de quem veio antes e de quem ainda virá. É entender que a luta contra o câncer não foi apenas médica ou espiritual — foi ancestral. Foi coletiva. Foi travessia que, ao ser honrada, abre passagem para outras travessias.
Jussara saiu de santo sabendo disso. E é por isso que sua saída não é fim — é começo. Começo de uma caminhada onde cada passo é oferenda, cada dia é reafirmação, cada testemunho é axé plantado para germinar em outros corpos, outras fés, outras lutas.
O compromisso não se cumpre de uma vez. Cumpre-se todo dia. Na persistência, na resistência, na presença. No cuidado com o próprio corpo como templo. No cuidado com o terreiro como casa. No cuidado com quem ainda vai precisar saber que Mãe Iemanjá não abandona seus filhos, mesmo quando o mar fica bravo demais.
Palavra final — para quem atravessa seu próprio mar
"Fé e resiliência. Que Mãe Iemanjá abençoe a todos hoje e sempre! Axé!"
Para quem atravessa um mar difícil agora, Jussara deixa duas palavras: fé e resiliência.
Não como conceitos abstratos, mas como vivência concreta. Fé que sustenta quando o corpo vacila. Resiliência que retorna, mesmo quando tudo pede desistência. Fé que não nega a tempestade, mas acredita no barco. Resiliência que não romantiza a dor, mas honra a travessia.
Que Mãe Iemanjá abençoe a todos hoje e sempre. Axé.
Quando o encontro é fundamento
Encontrei Jussara na internet achando que fosse prima de sangue. Chamei para conversar. Descobri que não éramos. Mas há parentescos que não passam pelo sangue — passam pelo axé, pela ancestralidade compartilhada, pela força que reconhece força mesmo à distância.
A espiritualidade promove reencontros quando, por algum motivo na vivência, existe o distanciamento. Não é coincidência. É caminho sendo aberto. É Mãe Iemanjá conduzindo águas que pareciam separadas, mas sempre correram para o mesmo mar.
Hoje sei: eu deveria testemunhar a história de Jussara. Não para admirar de longe, mas para contar o que a fé faz quando está enraizada, viva, testada. Como ela faz diferença diante de adversidade que quebra a maioria. Como Jussara, com amparo de família, amigos, irmãos de fé, pais de santo, irmãos de barco, equipe médica, reuniu forças que não eram só dela — eram de quem veio antes, de quem caminha ao lado, de quem cuida desde o invisível.
Quando vi Jussara sair de santo, não vi apenas uma mulher em ritual. Vi o que acontece quando a fé não é discurso, mas fundamento. Vi o que resta depois que o corpo foi testado até o limite e ainda assim não quebrou. Vi a filha das águas que sempre foi, mas que agora se reconhece com a profundidade de quem mergulhou fundo e voltou sabendo o próprio nome espiritual.
Vi também o que vim fazer aqui: testemunhar. Não explicar, não traduzir, não romantizar. Apenas dizer: isso aconteceu. E isso importa. Porque há travessias que precisam ser contadas para que outras pessoas, no meio do próprio mar bravo, não apenas tomem como exemplo, mas vivam a sua espiritualidade como Jussara vive. Suas palavras são fortes. Seu sentir tem potência. Isso é Umbanda. É Omolokô. É Jurema Sagrada. Não como religião distante, mas como vivência diária, corpo a corpo com o sagrado, fé que se testa todo dia e não quebra.
Que saibam que o barco não naufraga. Que Mãe carrega. Que a ancestralidade sustenta. Que a fé, quando é verdadeira, não promete facilidade — promete presença.
Jussara e eu não somos primas de sangue. Mas somos parentes de axé. E isso, no fim, é o que funda, o que sustenta, o que permanece.
A saída de santo não é chegada. É abertura. É mar que se entrega, barco que retorna, ori que reconhece o que sempre esteve ali: a ancestralidade viva, o cuidado de Mãe, a força do barco. Yawó Jussara D'Yemonjá saiu. E o mundo recebeu outra vez quem nunca deixou de ser filha das águas.
Por Santiago Rosa
Terreiro de Rezo
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Que texto bonito e que história inspiradora!
ResponderExcluirQue mãe Iemanjá abençoe 🙏🏼🩵
TESTEMUNHO MAGNÍFICO! ARTIGO ESPETACULAR! EXEMPLO DE FORÇA, FÉ E PRESENÇA VIVA, FIRME E SEGURA DA ESPIRITUALIDADE! QUE IEMANJÁ FORTALEÇA CADA DIA MAIS A SUA FILHA JUSSARA E A TODOS! ODOYÁ MINHA MÃE! SARAVÁ! AXÉ! 🐚🐚
ResponderExcluirEu estou extremamente emocionada pela forma delicada que você conduziu minha história, meu irmão e amigo Santiago. Que minha Iemanjá seja sempre um farol e um barco seguro na sua vida. Tudo que passei até aqui foi aprendizado de que nunca estamos a sós. Salve toda egregora de luz que nos sustenta! Odoyá Mamãe Iemanjá 🩵✨✨✨✨
ResponderExcluirAxé.
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