O Caminho do Amor e da Alegria
Como a escolha de cada dia prepara a morada eterna
Como ensina Vovó Maria do Rosário
"Nas volta dessa vida, cada caminho que ocê escolhe pisá é que nem plantá uma semente no terreiro da sua alma. Se ocê pranta amor, se ocê pranta alegria, pode ficá sussegada que quando fô fazê a passage, vai tê colheita boa."
A gente passa a vida inteira acreditando que o que fazemos aqui é separado do que seremos lá. Como se existisse uma linha divisória entre o mundo material e o espiritual, como se a passagem fosse um apagamento, um recomeço do zero. Mas Vovó Maria do Rosário, com sua sabedoria de preta velha que já viu muitas almas irem e virem, nos ensina diferente: não existe separação entre o que somos agora e o que seremos depois. A morada que habitaremos quando deixarmos este corpo está sendo construída tijolo por tijolo, escolha por escolha, gesto por gesto, neste exato momento.
Cada caminho que escolhemos pisar é uma semente lançada no terreiro da alma. E terreiro, a gente sabe, é chão sagrado — lugar onde tudo que se planta tem peso, tem consequência, tem colheita. Não dá pra jogar qualquer coisa no chão do terreiro e esperar que os orixás façam milagre. A espiritualidade não nos isenta da responsabilidade de semear com consciência. Pelo contrário: ela nos convoca a entender que somos agricultores da nossa própria eternidade.
Mas o que significa, afinal, plantar amor? O que é cultivar alegria de verdade, não essa alegria de superfície que a gente vende nas redes sociais, mas aquela alegria que Vovó diz que "vem lá do fundo da alma, que é que nem brasa acesa no fogão de lenha — quentinha, duradora"?
O Amor Que Lava e Limpa
Vovó compara o amor à água limpa de nascente. E essa imagem não é poética à toa. Água de nascente não é água parada, não é água de poça que acumula sujeira. É água que brota, que corre, que se renova constantemente. O amor verdadeiro é movimento, é fluxo, é limpeza contínua. Não é sentimento que se guarda na gaveta para usar só quando convém. É força que atravessa a gente, lavando mágoas, dissolvendo rancores, limpando as camadas de ressentimento que vamos acumulando ao longo da vida.
Quando Vovó diz que "é como se os guia tivesse sempre acendendo luz no nosso caminho", ela está falando de uma coisa concreta: amor é clareza. Quem vive com amor no peito enxerga melhor. Não porque vira ingênuo ou cego para a maldade alheia, mas porque deixa de projetar suas próprias sombras sobre os outros. Amar de verdade é deixar a nascente correr sem represar, sem condicionar, sem cobrar.
E não é qualquer amorzinho não, como ela mesma avisa. Não é aquele amor interesseiro, aquele amor que só funciona quando o outro corresponde, aquele amor que é barganha disfarçada. É o amor que faz a gente cuidar dos outros como se fosse nossa própria carne — mesmo quando dói, mesmo quando é difícil, mesmo quando não tem plateia aplaudindo. É o amor que a gente pratica no escuro, quando ninguém está vendo, quando não há recompensa imediata.
Existe uma tensão aqui que precisa ser nomeada: a gente cresce ouvindo que precisa se proteger, que amar demais é vulnerabilidade perigosa, que é preciso guardar o coração numa redoma para não sofrer. E isso não é mentira — existe sofrimento no amor, existe risco. Mas a alternativa não é deixar de amar; é aprender a amar sem se anular, a cuidar sem se esquecer de si mesmo. Vovó não está pedindo que nos tornemos tapetes. Está nos chamando para uma forma de amor que é também dignidade, que é também autocuidado, que reconhece a sacralidade da própria alma tanto quanto reconhece a sacralidade do outro.
A Alegria Que É Brasa, Não Fogo de Palha
Agora vamos falar dessa alegria que não é festa, não é euforia passageira, não é aquele estado alterado que dura enquanto dura a música. A alegria que Vovó ensina é estado de alma, não estado de humor. É aquela brasa que fica acesa no fogão de lenha, queimando baixo, constante, aquecendo por dentro.
A gente vive numa cultura obcecada pela felicidade instantânea. Vende-se felicidade como produto de consumo, como se bastasse comprar o carro certo, fazer a viagem certa, conquistar o corpo certo para finalmente estar alegre. Mas essa alegria de vitrine é fogo de palha — queima rápido, faz barulho, e logo vira cinza fria. Não aquece ninguém de verdade.
A alegria que Vovó Maria do Rosário propõe é outra: é aquela que existe mesmo quando as coisas estão difíceis, aquela que se sustenta não porque tudo está bem, mas porque a gente aprendeu a fazer as pazes com a vida como ela é. É a alegria de quem sabe que os pesos existem, que o sofrimento é real, mas que escolhe — escolhe ativamente, todos os dias — não se deixar consumir pela amargura.
"Quando ocê carrega essa alegria, os peso da vida fica mais leve de carregá", diz Vovó. E isso não é ilusão, não é pensamento positivo tóxico que nega a dor. É sabedoria prática: a alegria não elimina o peso, mas redistribui a carga. É como aprender a carregar um fardo pesado de forma equilibrada, usando a força do corpo inteiro em vez de sobrecarregar só os ombros. A alegria de fundo de alma não nega a tristeza — ela a acolhe, a processa, e continua acesa mesmo assim.
Existe uma diferença crucial entre alegria e negação. Negação é fechar os olhos para o sofrimento e fingir que ele não existe. Alegria é olhar o sofrimento de frente, reconhecer sua presença, e ainda assim encontrar motivos para agradecer, para celebrar, para permanecer vivo por dentro. A alegria verdadeira não é ausência de dor; é presença de sentido mesmo na dor.
A Passagem Que Não É Fim
Quando Vovó fala da passagem, ela não fala com medo. Ela não fala como quem teme o desconhecido. Ela fala como quem sabe, como quem já viu essa cena se repetir inúmeras vezes do lado de lá. "Num é fim não, viu? É só mudança de morada."
E aí está o ensinamento mais radical deste texto: a morte não é interrupção, é continuidade. Não é apagamento, é desdobramento. Tudo o que construímos aqui — em termos de caráter, de vibração, de qualidade de alma — vai conosco. A morada que habitaremos do outro lado é a materialização (ou espiritualização) exata do que cultivamos aqui dentro.
Se vivemos com amor no coração, plantando coisa boa, seremos recebidos com festa do lado de lá. Os guias já estarão esperando de braço aberto. Mas se vivemos na mesquinharia, no ódio, na inveja, na amargura? Vovó não precisa dizer explicitamente — a imagem já está clara: a colheita será correspondente ao plantio.
Isso não é punição divina. Não é Deus ou os orixás nos julgando e decidindo onde vamos parar. É lei de correspondência vibratória: semelhante atrai semelhante. Quem viveu na luz encontrará luz. Quem viveu no amor habitará no amor. Quem se afundou na escuridão encontrará escuridão — não porque os guias os abandonaram, mas porque a escuridão se tornou sua frequência, sua morada familiar.
Isso pode parecer assustador, mas também é libertador. Significa que não estamos à mercê de um juiz arbitrário, mas somos arquitetos da nossa própria eternidade. Temos agência. Temos escolha. Cada pequeno gesto de bondade, cada palavra de consolo, cada momento em que escolhemos o amor em vez do rancor está literalmente construindo nosso futuro espiritual.
Plantar Amor Por Onde Andar
"Pranta amor por onde andá", diz Vovó. "Seja que nem água limpa pros outro." E aqui voltamos à imagem da água de nascente, mas agora não apenas como descrição do amor, mas como chamado à ação. Ser água limpa para os outros é ser presença que purifica, que refresca, que nutre.
Não precisa ser gesto grandioso. Não precisa salvar o mundo. Às vezes, ser água limpa é apenas ouvir alguém com atenção genuína. É oferecer um copo de água para quem está com sede. É não alimentar a fofoca. É escolher a palavra que constrói em vez da palavra que destrói. É olhar nos olhos. É estar presente.
Existe uma beleza silenciosa nesses pequenos atos de amor cotidiano. A gente costuma subestimar o poder transformador de um gesto gentil, de uma palavra de encorajamento, de um sorriso sincero. Mas esses gestos são sementes, e sementes se multiplicam. Uma palavra gentil que você diz hoje pode mudar o dia de alguém, e esse alguém pode passar essa gentileza adiante, e assim o amor se espalha como água que encontra seu caminho através das rachaduras do chão.
Mas é preciso honestidade: plantar amor por onde andar é cansativo. É contracultural. É nadar contra a corrente numa sociedade que valoriza a esperteza, a vantagem, o "cada um por si". Exige de nós uma resistência ativa ao cinismo, uma recusa deliberada de endurecer o coração. E isso não é fácil. Isso é, talvez, o trabalho espiritual mais difícil que existe.
A tensão está posta: como permanecer vulnerável o suficiente para amar num mundo que pune a vulnerabilidade? Como manter o coração macio num contexto que exige armadura? Vovó não oferece resposta simples, mas oferece imagem: água limpa continua fluindo mesmo quando encontra pedras no caminho. O amor verdadeiro não para diante dos obstáculos; ele encontra outro caminho, contorna, persistente, pacientemente.
A Morada Que Você Está Construindo Agora
Vovó termina com uma síntese poderosa: "A morada nova vai sê igualzinho o que ocê construiu aqui embaixo. Se foi luz, vai morá na luz. Se foi amor, vai morá no amor."
Isso significa que não há tempo perdido, não há gesto irrelevante, não há escolha pequena demais para importar. Cada momento é oportunidade de construção. Cada interação é tijolo. Cada pensamento é pincelada na paisagem da alma que habitaremos.
E quando chegar a hora da passagem? Tudo estará preparado, tudo estará arrumadinho. Os guias estarão lá, esperando. Não porque somos especiais, não porque merecemos privilégio, mas porque fomos semelhantes em vibração, porque nos tornamos familiares da frequência do amor, porque aprendemos a linguagem da luz.
"O que a gente é por dentro é o que a gente vai sê por toda eternidade", conclui Vovó. E isso não é sentença, é convite. Convite para olharmos para dentro com honestidade radical e perguntarmos: o que estou construindo? Que morada estou preparando? Que colheita virá desses plantios?
Se a resposta não te agrada, há tempo ainda. Sempre há tempo de arrancar as ervas daninhas, de adubar o solo, de plantar novas sementes. A terra da alma é generosa — perdoa os plantios ruins, aceita recomeços, responde ao cuidado sincero.
O Terreiro da Alma Aguarda Sementes
Vovó Maria do Rosário não nos oferece escapismo espiritual. Ela não diz que se orarmos o suficiente, se fizermos as oferendas certas, se frequentarmos o terreiro toda semana, estaremos salvos. Ela nos coloca diante da responsabilidade imensa e bela de sermos co-criadores do nosso destino espiritual.
O caminho do amor e da alegria não é caminho fácil. Mas é caminho que leva a uma morada de luz, a um lugar onde os guias já nos esperam de braço aberto, a uma eternidade habitada pela mesma qualidade de presença que cultivamos aqui.
Então hoje, agora, neste momento: que semente você vai plantar no terreiro da sua alma? Que tipo de água você será para os que cruzam seu caminho? Que brasa você vai manter acesa no fogão de lenha do coração?
Porque um dia — e esse dia vem para todos — faremos a passagem. E tudo o que teremos será a colheita do que plantamos. Que seja colheita boa, cheia de amor, transbordante de alegria. Que os guias nos recebam com festa. Que a morada esteja pronta, toda arrumadinha, como deve ser.
Que Oxalá nos cubra de luz nessa caminhada. Que Vovó Maria do Rosário nos ensine a plantar bem.
Sobre o autor:
Escrito por Santiago Rosa, médium em desenvolvimento, através dos ensinamentos de Vovó Maria do Rosário. Que as palavras desta preta velha sábia ecoem nos corações de quem as lê e se transformem em sementes de amor no terreiro da alma de cada um. Salve as Pretas e Pretos Velhos!
Saravá! Adorei as almas!
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